Voz da realidade

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“Missão dada é missão cumprida”.             O filme de José Padilha, Tropa de Elite, lançado dia 12 de outubro nos cinemas do Brasil, oferece uma grandeza de temas que merecem ser pensados e discutidos pela sociedade global.            A ficção mostra a realidade, ou parte da provável realidade que a sociedade do Rio de Janeiro enfrenta: policiais estressados, mal pagos, insatisfeitos e divididos entre corrupção, indiferença e a “guerra” de lutar contra megatraficantes em meio à corrupção policial. Universitários de classe média alta, inseridos no contexto da favela, fazem parte de uma ONG que distribui preservativos para os moradores, participam do tráfico de drogas, mas não se consideram parte da criminalidade. Bandidos armados, “donos do morro”, aterrorizam o bem-estar das comunidades e “compram” alguns policiais para garantir, segundo eles, a paz no morro.            Nascimento (Wagner Moura) deseja se livrar do posto de capitão da tropa de elite do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), Rio de Janeiro, porque sua mulher, Rosane (Maria Ribeiro), está grávida. Ele convive com o perigo e a adrenalina de subir às favelas comandadas pela máfia das drogas. Recebeu uma nova missão: acalmar o Morro do Turano por conta da visita do Papa João Paulo II, em 1997. O ator interpreta um policial comprometido com suas obrigações, mas descontrolado em algumas ações com os moradores e bandidos das favelas. Quando sobe o morro, “deixa corpos no chão”. A postura do capitão por vezes emociona, outras vezes assusta e até repulsa o público. Enquanto cumpre ordens, ele procura um substituto capaz de desenvolver com audácia suas atividades. Esse enredo o deixa cada vez mais estressado. Ele e seu batalhão são chamados para resgatar dois policiais aspirantes ao BOPE: Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro), que estão cercados na favela. Os aspirantes despertam em Nascimento a chance de sair do batalhão. Esse é o seu maior sonho no momento.            O diretor José Padilha, formado em Administração de Empresas pela PUC (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), sabia o que iria enfrentar com o lançamento. Ele levou, junto com colaboradores, o longa de 120 minutos a repercussões nas rodas de intelectuais, nos debates familiares, escolares, jornais, revistas e também na televisão brasileira. Não conheço ninguém que não tenha assistido ou ouvido falar do Tropa de Elite.                         Aclamado por uns, no combate ao tráfico de drogas e a desmoralização dos policiais militares, julgado como fascista por outros, que enxergam a postura de Nascimento exagerada e super violenta. De qualquer maneira, cabe aqui reconhecer o talento do diretor por conseguir dar voz e veracidade a problemas enfrentados por muitos brasileiros dia após dia. Padilha não teve medo das críticas que certamente viriam ao seu encontro.            Vítima de episódios polêmicos, como pedidos na justiça contra sua exibição, roubo das armas cinematográficas, o longa ainda foi alvo de pirataria antes da estréia.  Algo parecido aconteceu com o filme A Bruxa de Blair, sendo que naquele caso foi uma jogada raciocinada pelos seus diretores. Já com o Tropa, a pirataria não foi uma medida proposital. O curioso é que o público continua indo aos cinemas e lotando as salas de todo o país.            Nos cinemas freqüentados pela classe média alta é válido observar a reação da platéia. A maioria dos jovens, em algumas cenas, parece assistir uma comédia e não um drama. Nas cenas de torturas as risadas escandalosas tomam altas proporções.  Já os mais velhos saem das salas em silêncio, no máximo fazem comentários discretos com seus companheiros.             Uma outra curiosidade é a posição da mídia. Todos os dias ela reserva espaço para discorrer sobre o filme. Isso começou antes mesmo da estréia. Os críticos teriam assistido cópias de camelôs? Acusam a pirataria, mas fazem uso da mesma sem explicar ou revelar? Ironia! Contradição?            Tropa de Elite não se posiciona a favor de ninguém. Suas cenas na verdade fazem criticas a todos os grupos mostrados (policiais, traficantes e jovens de classe média alta). O filme tem mérito por reunir em uma única obra assuntos “comuns”, encontrados todos os dias nas páginas policiais, no caderno de cidades e nas manchetes de TV, tratados de maneira sensível aos olhos dos brasileiros, que a partir de então estão se mobilizando mais sobre as questões abordadas.

Por Camila Peres

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