“Sim, Joãozinho!”

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“Santiago, uma reflexão sobre o material bruto”, do diretor brasileiro João Moreira Salles, é a narração de uma tentativa frustrada de documentário sobre a vida do mordomo que trabalhou para a família do diretor durante 30 anos, suas peculiaridades, suas preferências literárias e musicais. Todavia, Santiago é, antes de tudo, uma mostra de como se fazer um documentário, que ângulos explorar, que aspectos da vida do personagem mais interessantes devem ser abordados e como o papel do diretor da obra cinematográfica pode influenciar para melhor ou para pior o filme.

O documentário estreou no dia seis de outubro, uma semana antes dos aclamados e, sem dúvida, muito mais esperados, Tropa de Elite e o francês Piaf, um hino ao amor. Ao assistir ao filme, fica-se com a impressão de que o diretor é o personagem principal e não aquele que dá nome à obra. Na verdade, Santiago começou a ser produzido 14 anos atrás, quando “Joãozinho”, como era chamado pelo ex-mordomo inclusive nos bastidores do filme, era ainda inexperiente. Porém, algo deixou de funcionar na montagem e o filme não foi concluído. Em 2005, o diretor, então, decidiu por retomar o projeto, abordando agora outro foco.

A vida do mordomo, suas histórias pitorescas das nobrezas ocidentais e orientais que ele tanto admirava e sobre quem passou a vida lendo e transcrevendo fundem-se (ou confundem-se) com a de Moreira Salles. O espectador sente, não só pela narrativa in off do irmão Fernando Moreira Salles, mas também pelas interferências que o diretor faz no relato de seu personagem, à época das filmagens, a impregnante relação de classes entre os dois. Como o próprio narrador assume ao final da produção, a relação, durante as gravações no pequeno apartamento do ex-mordomo, entre diretor e personagem era a mesma que havia entre patrãozinho e serviçal.

Moreira Salles admite ainda, ao final, não ter dado a devida importância ao que seu protagonista tentava contar, interrompendo-o várias vezes, mandando repetir a mesma cena e o mesmo ato incansavelmente, enquanto o mordomo acatava com um “sim, Joãozinho” a cada corte de cena que era feito pelo diretor/patrão.

Santiago é um filme muito mais sobre os padrões de vida e comportamento de um diretor que passa por uma crise declarada e que se auto-revela ao longo de sua reflexão acerca da construção de um documentário, do que sobre um ex-mordomo de uma família rica, amante das grandes histórias das aristocracias, da boa música clássica, enfim, um fantasioso que acreditava ser a casa da Gávea o Palácio Pitti de Florença.

  

Por Camilla Sanches  

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