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 Mortes em deserto mexicano

Filme relata atrocidades contra mulheres na fronteira entre o México e os EUA

Por Jaqueline Resende

        Este ano, a cantora Jennifer Lopez produziu e atuou no filme “Cidade do Silêncio” (Bordertown). Junto com o diretor Gregory Nava, o mesmo de “Selena”, a cantora e atriz conta com a participação de Antonio Banderas e Sonia Braga no elenco. No filme ela interpreta uma jornalista de origem mexicana que investiga casos de estupro, seguidos de tortura e morte, em uma cidade fronteiriça entre o México e os Estados Unidos. Quando chega à cidade procura um velho amigo (Banderas), também jornalista, que lhe mostra que a história não é tão simples. Junto com a única sobrevivente dos ataques, eles tentam mostrar ao mundo o que está acontecendo na pequena cidade de Juárez.           

        Apesar de ganhar o prêmio da Anistia Internacional, “Cidade do Silêncio” foi alvo de muitas críticas negativas da mídia americana. E surpreendentemente, por causa disso, não foi divulgado e nem chegou a passar nos cinemas brasileiros. O filme pode não atingir as expectativas dos críticos americanos, mas o tema é tão impactante que atinge as pessoas e revira o estômago, sendo bom ou não. Sem nenhuma dúvida, esta não é uma grande produção de Hollywood e seu enredo não é dos mais fortes. Sua finalidade era mostrar o que está acontecendo na cidade, o enredo foi apenas um complemento. Seria injusto criticá-lo apenas com uma visão superficial que valoriza a espetacularidade em detrimento da essência. É necessário saber o que acontece nesse lugar e com essas pessoas, para depois fazer uma análise crítica precisa. 

        Juárez é uma pequena cidade Mexicana que fica exatamente na fronteira com os Estados Unidos. É uma cidade povoada por pessoas pobres, que geralmente vêm de outros lugares do México para trabalhar nas fábricas de montagens de eletrodomésticos presentes na cidade. A maioria dos trabalhadores dessas fábricas são mulheres, pobres, que não têm família por perto. Não há boas condições de trabalho ou de moradia para a população, infra-estrutura, muito menos proteção. As fábricas ficam distantes das favelas e do centro da cidade. Os empresários disponibilizam ônibus que levam as trabalhadoras para as proximidades de suas moradias, mas muitas ainda têm que caminhar uma longa distância pelo deserto para chegar em casa; se chegam minutos atrasadas nas fábricas, às vezes têm que voltar sozinhas no escuro.  

        A Anistia Internacional informa que desde 1993 foram achados corpos de moças nos desertos próximos às cidades. Os corpos sempre estão violados e a maioria com indícios de tortura. Até o ano passado foram reportados quase 400 casos de mortes e desaparecimento, todos de mulheres entre 13 e 25 anos. Noventa desses casos ainda não foram solucionados, muitas moças continuam desaparecidas e alguns corpos ainda permanecem sem identificação. O filme cita que já devem estar chegando à marca de cinco mil os casos de mulheres estupradas, torturadas e mortas ou desaparecidas, em todo o estado de Chihuahua, no México do início da década de 90 até hoje.  

        As famílias das vítimas fazem passeatas e protestos para conscientizar o mundo sobre o que acontece em Juárez. Um das cenas mais chocantes do filme mostra parentes de vítimas procurando corpos no deserto; com varetas ou com as mãos. As autoridades não fazem absolutamente nada e ainda não permitem que os jornais locais reportem as atrocidades que acontecem. Algumas pessoas são presas, mas os crimes continuam. A idéia de um assassino em série já foi descartada porque os padrões das mortes são diferentes.

       Acredita-se que até mesmo pessoas importantes e influentes estariam participando dessas atrocidades, por isso o femicídio é encoberto e ninguém pode escrever sobre o assunto. Em outro filme chamado “A Virgem de Juárez”, que também trata sobre os crimes ocorridos na cidade, fica claro que quem quer matar uma mulher por qualquer motivo aparente é só ir a Juárez.

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